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No mês de abril apresentei minha
dissertação de mestrado com o tema:
"Avaliação do estado metabólico e nutricional de
indivíduos vegetarianos e onívoros”. Por ser um tema de interesse da população
vegetariana, resolvi escrever na Revista dos Vegetarianos um pouco sobre
os resultados desse estudo.
A escolha dos participantes
Para a captação
dos dados, utilizei pacientes atendidos no meu consultório, dentro do que faço
diariamente numa avaliação médica nutrológica. Nessa avaliação, verifico o
metabolismo de carboidratos, proteínas e gorduras, hidratação, oxigenação,
assim como dos principais nutrientes que causam impacto quando deficientes em
nosso organismo. Associado a isso, é possível também verificar o grau de
fadiga, irregularidade de hábitos e ajustes necessários em termos de hábitos,
alimentação, atividade física e tratamento medicamentoso (nutrológico ou não).
O grupo estudado foi composto exclusivamente
por mulheres, entre 20 e 50 anos (que não estavam grávidas ou amamentando) e
com peso adequado para a altura (o que chamamos de eutróficas). O tempo da
dieta padrão que seguiam era de, pelo menos, um ano. Elas não utilizavam
medicamentos, suplementos ou tinham qualquer doença que influenciava o estado
nutricional. Não fumavam, eram sedentárias ou praticavam atividade física, no
máximo, três vezes por semana.
O funcionamento
da glândula tireóíde e do fígado estava adequado e foi avaliado por meio de
exames laboratoriais. Além disso, foram incluídas no estudo apenas as que
traziam exames de um laboratório específico, para que não houvesse métodos
diferentes sendo usados para as dosagens. Dezoito tipos diferentes de exames de
sangue foram coletados e cerca de 32 itens presentes nesses exames foram
utilizados para avaliação dos resultados laboratoriais.
Homogeneidade das participantes
Foram avaliadas
59 mulheres (onívoras e vegetarianas).
O índice de Massa Corporal (relação do peso com a altura elevada ao quadrado) foi equivalente (cerca de 2kg/m2), assim como a idade (em torno de 33 anos). Pela avaliação da
composição corporal, ambos os grupos tiveram distribuição equivalente de
gordura corporal e massa magra. Isso tudo quer dizer que o grupo não
vegetariano e vegetariano foi bastante homogêneo e muito adequado para comparar
as diferenças encontradas em exames laboratoriais, Quando a homogeneidade é tão
grande quanto a que encontrei, não é necessária uma amostra enorme de
participantes.
RISCO PARA
DOENÇAS CARDIOVASCULARES
Colesterol total e frações
A avaliação dos níveis de colesterol ganhou importância
ao ser descoberto que pessoas com níveis elevados tinham maior risco para
apresentar obstrução dos vasos sanguíneos por placas de gordura (ateroma),
desencadeando o infarto do coração, derrame cerebral, dentre outros desfechos,
às vezes, fatais.
É bastante
conhecido na literatura científica que os vegetarianos têm níveis de colesterol
mais baixos do que os não vegetarianos. Também encontramos esse dado, com
redução de 10,4% dos níveis de coiesterol nos vegetarianos avaliados. Vale
ressaltar que vegetarianos e não vegetarianos estavam com valores de colesterol
dentro do que é considerado normal.
No
entanto, para a avaliação do colesterol, não basta apenas olhar o colesterol
total, pois tudo que é total provém da soma das partes. Assim, o
colesterol chamado bom” (HDL), o ‘ruim” (LDL) e o VLDL somados resultam o
colesterol total.
Assim, temos
pessoas com colesterol total elevado com boa relação dessas partes, o que não
seria um problema; mas também pessoas com um colesterol total com valores
normais, porém com má relação entre as partes, o que pode ser um problema.
Existem índices específicos
para verificar a proporção entre o colesterol total, HDL e LDL e é sempre
importante, em qualquer dosagem, avaliá-los.
Avaliamos esses
índices no estudo e verificamos que vegetarianos e não vegetarianos
apresentavam boa proporção dessas frações (partes do colesterol) e sem
diferença entre os grupos. Este mesmo dado é encontrado nos estudos científicos
publicados.
Assim, é muito
provável que a redução da mortalidade por doenças cardiovasculares, bastante
conhecida nas populações vegetarianas, não ocorra apenas pela redução dos
níveis de colesterol, pois não houve dferenças (assim como mostra a literatura
científica), entre as proporções do colesterol total, do HDL e LDL entre
vegetarianos e não vegetarianos.
Dessa forma, os
benefícios da redução dos níveis de colesterol não traduzem necessariamente redução
do risco para doenças cardíovasculares.
Triglicérides
Triglicérides são
um tipo de gordura (diferente do colesterol) que pode causar sérios problemas
quando elevado. Eles costumam ser mais influenciados pela alimentação do que o
colesterol. Excesso de açúcar, gordura e álcool tendem a elevá-lo. Pessoas com
uma alimentação sem excessos tendem a ter níveis mais baixos. Há casos de
colesterol elevado onde o vilão são os triglicérides. Vegetarianos e não vegetarianos
apresentaram níveis de triglicérides semelhantes na literatura científica, e
foi isso que encontramos no estudo.
Inflamação
Outro fator
associado ao risco de doenças cardiovasculares é o nível de inflamação do
organismo. Podemos entender inflamação como uma resposta do corpo frente a uma
agressão, culminando em uma resposta bastante complexa de eventos no nosso
corpo. Esse tipo de inflamação não é resolvido tomando antiinflamatórios.
Sabemos hoje que aterosclerose é uma doença
inflamatória crônica, de origem multifatorial decorrente da agressão à parte interna
do vaso sanguíneo, favorecendo a formação de placas de gordura dentro desse vaso. Se essa
placa aumenta muito de tamanho, o local que ela irrigava (levava sangue) pode
ficar obstruído e o sangue não chega. Assim, o local deixa de receber sangue
(oxigênio) e morre. É um exemplo de um infarto cardíaco, por exemplo,
onde parte do músculo do coração morre.
Há inúmeros
exames de sangue que podem medir a quantidade de inflamação que um indivíduo
tem no organismo. Dentre eles, é muito utilizado a chamada Proteína O Reativa
Ultrasensível. Essa proteína fica elevada no organismo sempre que há mais
inflamação e é bastante utilizada na prática clínica.
Os dados que
encontramos foram equivalentes entre os vegetarianos e não vegetarianos. Assim,
por esse parâmetro, não houve diferença nos níveis de inflamação entre os
grupos, fator que poderia acelerar o surgimento de doenças cardiovasculares.
Homocisteína
É um componente
que aumenta no sangue quando há deficiência de alguns nutrientes, especialmente
ácido fólico (vitamina B9) e vitamina B12. Sua elevação pode aumentar o risco
para doenças cardiovasculares.
Em uma
próxima edição contarei com detalhes o que encontramos com relação à vitamina
B12 nos grupos, mas adianto agora que os níveis de homocisteína encontrados
foram equivalentes, mas com tendência a serem maiores no grupo vegetariano.
Tanto
vegetarianos quanto não vegetarianos tinham os níveis de homocisteína
dosados acima do que seria o ideal.
Outros dados
A avaliação de
outros fatores de risco para doenças cardiovasculares, como a presença de
hipertensão arterial, excesso de peso, diabetes e tabagismo, foram todos excluídos
na seleção dos pacientes.
Por que
vegetarianos têm menor mortalidade por doenças cardiovasculares?
Essa resposta
ainda não é clara. Há diversas teorias para isso, mas ainda não temos
respostas definitivas.
Extraído
da Revista dos Vegetarianos 44
Dr. Eric Slywitch- medico
especialista em nutrologia, nutrição enteral e parenteral. Especialista em
nutrição vegetariana. Autor dos livros “Alimentação sem carne- Guia prático” e “Virei
vegetariano. E agora?”
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